Algumas estradas levam a lugares.
Outras levam de volta.
Esta não é a história de uma heroína. É o registro de uma entrega, uma cidade interrompida e uma jovem que passou a vida inteira sem saber de onde veio.
A mulher sem rosto
Isabela desperta antes do alarme. No sonho, uma mulher permanece imóvel no meio de uma estrada molhada. Isabela tenta alcançar seu rosto, mas a chuva apaga todos os detalhes.
“Não deixe que eles contem como terminou.”
Sobre a mesa, quatro objetos aguardam. Nenhum deles parece importante ainda.
Vestígios antes da partida
Toque em cada objeto para examiná-lo.
Uma corrida fora da rota
O pagamento era maior do que uma entrega comum. Outros motociclistas recusaram. Isabela pensou na matrícula da faculdade e aceitou sem fazer perguntas.
“É só entregar e voltar.”
A estrada depois da curva
O trânsito desaparece. Uma a uma, as emissoras somem do rádio. Quando a placa surge entre a garoa, Isabela sente que já conhece aquela estrada.
A cidade não parecia destruída.
Parecia interrompida.
Farmácia São Lucas. Bar do Nilo. Cine Paraíso. As fachadas permaneciam inteiras, mas nenhuma porta se abria. Os registros ainda afirmavam que mais de mil pessoas viviam no município. Isabela não encontrou nenhuma.
A primeira pessoa
Uma luz acesa atrás das cortinas confirma o endereço. Isabela bate no portão.
As casas ainda respiram
Isabela deveria voltar para São Paulo. Em vez disso, deixa a motocicleta junto ao meio-fio e percorre a Rua das Acácias. Pratos permanecem sobre mesas, cartas se acumulam atrás das portas e calendários marcam anos diferentes.
Do outro lado da rua, uma cortina se fecha. Não havia vento.
O programa interrompido
Uma televisão é ligada dentro de uma sala vazia. Na tela, um antigo episódio de O Meu Melhor Amigo. Isabela reconhece o urso de uma orelha azul preso às chaves da motocicleta.
“O que devemos fazer quando esquecemos o caminho de casa?”
“Esperar que a casa se lembre de nós.”
Pegadas recentes
O portão e a porta estão destrancados. O interior cheira a umidade, madeira antiga e medicamento. Marcas de pés molhados atravessam o corredor. Alguém passou por ali poucos minutos antes.
As pegadas terminam diante de um quarto infantil.
O que foi deixado na cama
Desenhos do urso cobrem as paredes. Nas fotografias, os rostos dos adultos foram arrancados. Sobre a colcha existem uma fita VHS e um prontuário dobrado.
A fotografia de Helena
Ao retornar à rua, Isabela vê o morador atrás da janela da casa 81. Ele segura uma fotografia antiga: Helena Garcia, de jaleco, ao lado de uma menina de seis anos.
O homem não abre a porta. Apenas aponta para a estrada e fecha a cortina.
O mapa que não deveria existir
Dentro da moldura, Isabela encontra um mapa dobrado da cidade. Três caminhos foram marcados à mão. No verso, uma frase escrita com tinta azul:
“Se quiser saber o que fizeram com você, comece pelo lugar onde ninguém recebe alta.”
A cidade encontrou
uma forma de responder.
Na direção da estação, os postes de luz se apagam um após o outro.
O ARQUIVO 001 CONTINUARÁ